Um dos aspectos valiosos em torno do universo da arte é a pluralidade de signos e sentidos que uma mesma obra pode encerrar. Para além das acirradas discussões que se arrastam em torno da permanência da aura do objeto artístico, algo deve ser levado em consideração – a necessidade do aprimoramento do olhar através das percepções sugeridas pelo vasto

terreno da sensibilidade. Ao mesmo tempo, apegarmo-nos ao viés da subjetividade nem de longe deve representar qualquer sinal de negligência a cânones e referências consolidados no contexto histórico da humanidade.

A expressão artística, enquanto instrumento motivador de uma transformação efetiva, é capaz de extrapolar noções herméticas e, por assim dizer, elitistas para promover uma aproximação com pessoas tradicionalmente postas à margem nesse intricado jogo interpretativo. E há quem ouse a se enveredar com propriedade por esse terreno. Exemplo vivo disso está no trabalho do artista plástico paulista Cláudio Canato, cuja arte revela-se capaz de transcender meros espaços contemplativos e nos propõe um diálogo no qual as acepções de beleza invariavelmente buscam se abrigar no sagrado das coisas. Utilizando-se de temas que permeiam aspectos sociais e simbólicos, a obra de Canato se agiganta quando os olhares se voltam para as nuances humanas expostas nas mais variadas expressões de suas telas. Ali, cada forma, tom ou gesto refletem um pouco das densidades tão presentes no espírito dos homens. Conversando conosco, Canato fala um pouco sobre seu processo criativo e influências, os rumos da arte contemporânea e alguns outros assuntos que o posicionam como um artista definitivamente engajado com as questões de seu tempo.

DA – Sua arte, sobretudo através dos recortes humanos, reflete um experimentar de sensações que percorrem tons existencialistas. Que tipo de desejo orienta esse seu olhar?

CANATO – O desejo de ser uma pessoa melhor e de tentar fazer do mundo um mundo mais humano, mais justo e, se possível, mais belo. Através desses recortes, vejo a mim mesmo multifacetado. Tento entender melhor quem sou, principalmente no que posso me transformar e, dessa forma, contribuir como artista e como ser humano. Acho que essa é uma maneira de ser e existir, de experimentar e absorver o mundo, sofrer e viver de forma intensa o real. Viver é uma estética. Sem essa experiência o artista não cria de verdade. É preciso intensidade e muita entrega para entender o mundo e poder interpretá-lo, traduzi-lo, pintá-lo e transcendê-lo.

DA – A estética Barroca e Renascentista que atravessa a sua obra enaltece o propósito de representar as expressões humanas com mais vivacidade e precisão. A opção por tais escolas sempre fez parte de seu trabalho?

CANATO – Os dois momentos são insuperáveis. Ali estavam de fato os “mestres da pintura” e fizeram tudo de tudo de forma impressionante. São minhas duas maiores fontes, das quais absorvo todos os ensinamentos em termos de pintura. No meu começo, não acreditava ser possível fazer algo tão grandioso. E mesmo hoje parece meio pretensioso, mas esse foi o pensamento que sempre norteou minha busca pessoal. Experimentei várias estéticas diferentes, linguagens mais estilizadas, quase abstratas, sempre mergulhado em experimentalismos que, evidentemente, ajudaram a construir meu modo de ser e de pensar.

O Barroco talvez seja a escola que mais me fascina, mas a Renascença foi “o grande momento” da arte. Meus trabalhos devem muito a Botticelli, Ticiano, Caravaggio, Rembrandt e a todos que trago dentro de mim. Sem a ajuda deles eu não teria conseguido certos avanços técnicos. Essas foram influências escolhidas a dedo, mas sempre com a preocupação de ser eu mesmo. Sou da pintura e, definitivamente, um artista da figura. Posso dizer que não foi simples chegar até aqui. Não é tarefa fácil, hoje em dia, trilhar tais caminhos, mas é o que gosto de fazer e o que tenho de mais verdadeiro dentro de mim. O importante é fazer o que se acredita. Não vejo necessidade de romper com nada, nem abandonar nada para ser novo, seja suporte, seja técnica, e, principalmente, o que se acredita. Basta ser você mesmo, isso só já faz de um trabalho único. O importante é produzir de forma honesta e o mais sincera possível. E produzir com amor, isso é essencial.

DA – Certa feita você assinalou que havia muita falta de preparo por parte de gente que se propõe a ensinar arte, aspecto que muitas vezes chega a limitar em demasia a criatividade dos aprendizes. Isso ainda é muito frequente?

CANATO – Infelizmente, assistimos hoje a uma total banalização das coisas, dos valores, e o ensino não ficou livre desse fenômeno. A crise do ensino se reflete diretamente na crise atual da arte. Embora haja uma preocupação cada vez maior com a educação, não se pode dizer que o que se ensina, na maioria das escolas, seja arte, com raríssimas exceções. O ensino de arte foi reduzido a meros trabalhos de “dia dos pais”. Muita coisa precisa ser mudada. Embora muitas pessoas bem intencionadas e preparadas estejam conseguindo realizar seus projetos, ainda há muito por fazer.
Gosto da ideia de ensino multidisciplinar com a arte permeando todas as outras matérias, o que tornaria o aprendizado mais significativo e menos mecânico. O professor assumiria o papel de gerenciador de capacidades e de estimulador de talentos.

Quando o talento existe, deve ser estimulado no mais alto nível. O professor deve, antes de tudo, detectar as diferentes capacidades dos alunos para melhor aproveitá-los. O bom educador é aquele que está atento às mudanças e principalmente às oportunidades em sala de aula, saber como e quando usar a arte para uma maior e mais eficaz absorção do conhecimento por parte do aluno. Estou desenvolvendo um projeto ligado à educação infantil que espero possa contribuir um pouco no desenvolvimento dessas capacidades. Espero um dia ver a arte no lugar que é dela por direito e não como matéria transversal. Sonho em ver a arte presente na vida das pessoas não como entretenimento e passatempo, mas integrada à própria vida, e as pessoas, de fato, fazendo um uso mais consciente dela. Talvez aí o mundo melhore.

DA– Ainda há a questão de que criatividade e domínio técnico nem sempre fazem par constante…

CANATO – Em decorrência da deficiência do ensino, é cada vez mais raro encontrar um artista mestre de seu ofício, que domine de fato alguma técnica. Bons pintores estão quase em extinção. Hoje o fazer artístico não requer prática nem habilidade, a produção é efêmera e, na maioria das vezes, está em segundo plano, mais vale uma boa rede de relacionamentos. A produção é cada vez mais submissa a discursos muito bem “elaborados”, que mascaram um conteúdo inexistente ou, propositadamente, tornam-no inatingível. Dessa maneira, a criatividade é desperdiçada em elucubrações cada vez mais distantes de nossa realidade, a obra se esvaziou e, como consequência, o público se afastou.

Particularmente, vejo esse momento com certo otimismo, tudo é cíclico, tudo se esgota para novamente renascer, renovado. Vejo nessa crise uma nova oportunidade para a pintura e percebo que os experimentalismos contemporâneos, bons ou maus serviram para provar que o belo é essencial para o ser e que o público deve e quer ser respeitado e está sempre ávido por arte de verdade.

DA – Há um viés social muito forte na sua série Pessoas à Margem. Acredita que a arte pode atenuar certos incômodos tão nossos?

CANATO – A arte não só pode atenuar esses incômodos como pode transformá-los. Leonardo dizia que “O belo toca o coração…” e acho que, de forma irreversível, as pessoas se transformam através da arte e cabe a elas transformar o mundo.

A série Pessoas à Margem foi extremamente importante no meu processo de crescimento como artista e como ser humano. Tive oportunidade de conhecer pessoas e ter contato com realidades totalmente diferentes da minha, que me fizeram questionar tudo e querer mudar tudo.

DA – Como você percebe a questão da sobrevivência da aura do objeto artístico face a um mundo tão cheio de ruídos e distorções interpretativas?

CANATO – A aura do objeto artístico nunca morre. As interpretações equivocadas, por mais que atrapalhem e deturpem a visão da obra, não tiram do objeto artístico sua aura. Nos séculos XX e XXI, a arte sofreu duros golpes, as subsequentes rupturas foram esvaziando o conteúdo da produção, sobretudo na produção mais recente. Os ruídos são muitos, mas não prevalecem sobre a verdadeira obra de arte, que permanece independente das opiniões e da crítica. A obra verdadeira é independente, autônoma e atemporal. A arte pura nunca morre, o objeto artístico nasce eterno e pode até, num primeiro momento, ser desprezado e restar esquecido por séculos em algum porão, mas, quando vem à luz, é por todos reconhecido e reverenciado.

Tenho uma teoria: a medida do gênio de um artista está diretamente relacionada ao tempo que sua obra leva para ser entendida e aceita. Se um trabalho leva cinquenta anos para ser compreendido, o artista estava cinquenta anos à frente do seu tempo.

DA – Corremos sérios riscos atribuindo valores a tudo o que se apresenta nessa enxurrada?

CANATO –

O homem que não possui a música em si mesmo,
Aquele a quem não emociona a suave melodia dos sons,
Está maduro para a traição, o roubo e a perfídia.
Sua inteligência é morna como a noite,
Suas aspirações sombrias como o Erebo.
Desconfia de tal homem! Escuta a música.

Shakespeare

A resposta a essa pergunta é sim, é preciso muito discernimento. Nunca se viu tamanha quantidade de informações. Hoje elas nos chegam de todos os lados e por todas as mídias. É um fenômeno sem precedentes e que tem como resultado a banalização da informação e de todas as coisas. Infelizmente, a obra de arte também foi banalizada. Mais do que nunca é preciso saber separar o joio do trigo, pois os carniceiros atacam sem piedade.

Há alguns anos, uma matéria do Arnaldo Jabor dizia que “a arte contemporânea se encontrava num beco sem saída”. Segundo Affonso Romano de Sant’Anna, vivemos hoje o que ele chama de “Anomia Ética e Estética”, as artes moderna e contemporânea devem ser reavaliadas. São pensamentos que devem ser levados a sério, pois muito do que hoje se produz “artísticamente” é lixo e passa despercebido nessa enxurrada.

DA – A série Os Doze Trabalhos de Hércules marca um momento muito especial em seu trabalho, equilibrando os contornos vivos de formas e expressões das personagens com uma valiosa pesquisa histórica. O que mais o motivou a recriar esse verdadeiro ícone mitológico?
CANATO – De fato, é um bom momento, momento de muita segurança. Pela primeira vez, sinto-me no domínio pleno do meu trabalho, livre para criar. Não quero dizer que tenha chegado ao auge, mas acredito que minha produção mais verdadeira começa agora.

Trabalho nessa série há pelo menos dez anos. Sou apaixonado por mitologia e principalmente por simbologia, e os Trabalhos de Hércules me fascinam desde pequeno. Lembro que meu primeiro contato com o herói foi nos livros de Monteiro Lobato. Esse é um mito fascinante e recriá-lo foi como desconstruir a mim mesmo, e o mais interessante foi descobrir que somos todos heróis em potencial.

Existem duas maneiras de se ler um mito: uma é literal, lendo-o pura e simplesmente como uma história, imaginando outros mundos, seus heróis, seus monstros e seus deuses, o que, por si só, já é extraordinário; porém, a outra, e ainda mais fascinante forma de leitura, é indagando o que realmente esta história quer nos contar, é ler buscando seu real significado, sua verdade, que vai muito além das aparências, e que, de certa forma, nos traz de volta desta viagem imaginária, ao percebermos que os mitos nada mais são que imagens de nós mesmos, são contos que ilustram, fantasticamente, nossas próprias histórias.

DA – “A Pintura é o retrato dos mais belos sonhos da Poesia”. O quanto esse pensamento ajuda a dimensionar seus olhares?

CANATO – Essa é uma frase que me foi dedicada por um querido amigo anos atrás. É um pensamento que me ajuda a entender o mundo ou, pelo menos, vê-lo de outra forma, com olhos de poeta.

O poeta trabalha imagens da mesma forma que o pintor. As duas artes são muito íntimas e o diálogo entre elas é muito rico. O artista lê o mundo através do que eu chamo de “códigos do belo”. Esse é um olhar diferenciado, que vê beleza em tudo e tudo através da beleza. Arrisco até a dizer que nós, pintores, também somos poetas, poetas da cor.

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